Decorreu, entre os dias 6 e 8 de março, mais uma edição do Talkfest, evento que visa debater assuntos em torno dos festivais. A edição deste ano – a segunda – debruçou-se sobre assuntos como a associação de marcas aos festivais; as novas tecnologias e a questão da ecologia; fatores turísticos e económicos; os festivais como forma de divulgação de artistas; e se estamos efetivamente a entrar numa fase decrescente no que toca a este tipo de eventos. O auditório Caixa Geral de Depósitos do ISEG esteve bem compostos para quase todas as sessões do Talkfest 13, tendo os concertos, igualmente, registado uma boa afluência.
Já é sabido que Portugal realiza por ano um grande número de festivais, com tendência a multiplicar-se de ano para ano, no entanto, ninguém, durante os três dias de conferências, soube revelar um número exato de festivais que ocorreram, por exemplo, no ano passado, ou dos que já estão confirmados para este ano. Uma tremenda falha informativa que deixou os presentes com um enorme ponto de interrogação e um mísero “à volta de 50”.
Números em concreto apenas foram revelados na intervenção de Álvaro Covões - diretor da Everything Is New – sobre a internacionalização de um conceito, neste caso o do Optimus Alive!. 17 mil - foi exatamente o número de bilhetes vendidos no estrangeiro, que se repartiram principalmente pelo Reino Unido e pela nossa vizinha Espanha. Segundo o próprio, “o clima é a principal razão do sucesso dos festivais em Portugal”. Ao clima aliam-se, também, as ofertas culturais, como a visita a monumentos e museus, e a possibilidade de disfrutar da noite portuguesa. Ainda no seguimento desta ideia, Álvaro acrescentou: “Não podemos pensar apenas nos dez milhões de portugueses, temos de pensar de forma mais global”, e adiu, mais tarde, que “o TGV seria uma mais valia para Portugal”, já que nos encontramos a 600 quilómetros da cidade europeia mais próxima – Madrid.
Ainda no campo do turismo, mas noutro painel totalmente à parte, Jorge Lopes assumiu a importância da divulgação de festivais além fronteiras. “É importante a divulgação lá fora, em feiras”, afirmou o diretor do Marés Vivas, acrescentando ainda “Portugal é um bom destino preço/qualidade”.
Chris McCormick, um dos convidados internacionais para a conferência do último dia na Aula Magna, viria a concluir mais tarde a ideia de Jorge Lopes. “Portugal não promove os seus festivais lá fora”, acusou o co-fundador da Festival Awards, uma organização que executa estudos em festivais através de inquéritos ao consumidor. “Os estrangeiros viriam pelos preços e pelo clima”, concluiu. Ainda no seguimento desta ideia, o próprio refere que há festivais que valem pela experiência e exemplifica com o Glastonbury. “As pessoas vão ao Glastonbury sem sequer saberem quem faz parte do cartaz”, explicou Chris. Justamente, dias antes, Pedro Caldas, representante do departamento de patrocínios e eventos da Vodafone, já tinha feito referência a esta ideia quando disse que “o Rock in Rio é um festival que se vende só por si, não necessariamente pelo cartaz”.
As marcas são as principais culpadas, no bom sentido, por criarem experiências nas pessoas, por marcarem um determinado evento para a posterioridade, como foi referido no debate de abertura das conferências, que juntou Meo, Vodafone, CP, Optimus e Havas nos mesmo painel. Para a CP, o objetivo é “claramente comercial”, como disse a diretora de marketing, Filipa Ribeiro. Segundo a Meo, e a propósito da mudança de Sudoeste TMN para Meo Sudoeste, o objetivo é a aproximação do segmento jovem. “Os festivais são unificadores e são os melhores meios de aproximação com o público jovem”, referiu Miguel Guerra, representante do departamento de patrocínios e eventos da Meo e TMN. O afastamento da EDP do patrocínio do Paredes de Coura ditou a oportunidade da Vodafone se associar ao festival minhoto. “Surgiu a oportunidade de ficar com o Paredes de Coura, e pareceu-nos evidente associar a marca a um festival”, concluiu Pedro Caldas. “Mas afinal como é que o público vê a associação de marcas aos festivais?”, foi uma das perguntas omissas à qual a Havas Media – que realizou um estudo de mercado sobre o assunto em seis países - respondeu. “As marcas são benvindas no espaço dos festivais. 65% dos entrevistados dizem que melhoraram a sua experiência no evento”, afirmou Rui Almeida, diretor de pesquisas da Havas Media, acrescentando ainda que “65% dos entrevistados dizem que, se as experiências forem positivas, acabam por recomendar ou fortalecer a relação com a marca em questão”.
No mesmo dia, horas depois, debatia-se a questão ambiental em torno dos festivais. Segundo Nuno Sequeira, presidente da Quercus, “a questão da localização é fundamental na organização de um festival. Com facilidade se conseguem encontrar locais em que os impactos ambientais sejam menores”. Os festivais não são, todavia, a área principal de ligação desta organização ambiental. No entanto, já agiram em prol do ambiente ao contestar a realização de um festival, por não se enquadrar no padrão de proteção ambiental. Já Davide Pinheiro, jornalista do Disco Digital e Blogger na Mesa de Mistura, testemunhou um exemplo de um evento que se preocupa bastante com as questões ecológicas. “Estive no Boom. É exemplar, não se vê poluição. Funciona como uma espécie de sociedade alternativa que utiliza materiais degradáveis e recicláveis”, relatou o jornalista. Alvaro Covões, ainda a propósito da sua intervenção sobre a internacionalização do conceito Optimus Alive!, referiu que “90% do evento é alimentado por energia verde. Apenas é montado um gerador no palco principal”.
Quanto aos festivais como a melhor forma de divulgação de artistas, John Gonçalves, manager e músico dos The Gift, demonstrou uma posição muito vincada em relação ao tema. “Se eu agora fizesse uma banda com alguém, facilmente conseguiria ir tocar a um festival. Não há que criar falsas expectativas às bandas. Existem vários exemplos de bandas que foram a festivais e não construíram carreira em torno disso. Estar em festivais de verão é importante, mas mais importante é estar em outubro ou em novembro em salas espalhadas pelo país”. Já para António Freitas, radialista da Antena 3, “é importante o todo. O festival hoje em dia funciona quase como um supermercado de música. Muitas vezes tocar com bandas de topo serve de currículo para bandas mais pequenas”. Para Tozé Brito, administrador da SPA, os festivais “não são a melhor forma, mas são uma das formas de divulgação”. Ficou claro, no entanto, que a rádio é um dos melhores veículos para a divulgação de bandas. E, por diversas vezes, a Antena 3 foi referenciada como a rádio em excelência para tal.
No Talkfest 13, houve concordância em quase todos os assuntos debatidos, no entanto, houve um dos temas que mereceu uma posição unânime por parte dos intervenientes e da plateia em geral. “O sucesso dos festivais em Portugal – o início de uma fase decrescente?”, foi a pergunta que serviu de mote a este painel. As respostas revelaram-se, então, uniformes. “Não sinto que esteja numa fase decrescente”, referiu José Costa, diretor do Sons de Vez, um evento que se realiza em auditórios, no inverno, e que mesmo assim continua a mobilizar público. Joaquim Albergaria, músico da banda PAUS, diz não ter notado que os festivais estivessem em crise. “Reparei, isso sim, que os bolsos das pessoas é que estão em crise. Os festivais não vão acabar de certeza absoluta, vai é começar a haver uma seleção”. Já para Diogo Dias, músico dos Klepth e repórter da MTV, “os festivais em Portugal estão a respirar boa saúde. Estão no auge e com cartazes inacreditáveis”.
No seguimento desta questão, na conferência do último dia do Talkfest 13, Chris rematava – depois de ser questionado sobre o que poderia ser feito para melhorar os festivais em Portugal – com as seguintes ideias: “Aprendam com o que se passa no Reino Unido. As lutas pelos cabeças de cartaz vão aumentar e os organizadores vão ter de começar a pagar mais pelos seus artistas. Os organizadores têm de começar a falar uns com os outros e a partilhar ideias que possam ser proveitosas”. James Drury, diretor e colega de Chris na Festival Awards, acrescentou que “a crise é a maior ameaça, no entanto, as crises económicas estimulam a criatividade – os organizadores de festivais vão ter de ser mais criativos e ter ideias mais interessantes”.
Em suma, as marcas nos festivais estão a apostar cada vez mais na experiência com o consumidor, de forma a registar tais momentos para ulterior e manter uma relação afincada com a marca e o festival em questão. Um dos elementos cruciais à internacionalização de um festival é a própria propaganda além fronteiras. Concluiu-se que os festivais não estão em crise e que estão a caminhar em prol de questões ambientais. E que, num futuro próximo, os padrões organizacionais poderão vir a sofrer ligeiras alterações. Respiram-se, então, tempos de bonança para os festivais no nosso país. Como disse Joaquim Albergaria, “enquanto houver amor à música, bandas a fazer música e pessoas a procurarem música, os festivais vão continuar”.
Manuel Rodrigues
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fonte:http://palcoprincipal.sapo.pt/
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